Confissões de um pastor angustiado

Desde que me envolvi com a plantação de uma igreja local, tornei-me uma pessoa angustiada. Melhor, sempre fui angustiado, a plantação apenas abriu meus olhos e me fez consciente desta angústia. É um tanto difícil explicar esse sentimento, pois não se trata de uma angústia deletéria. Fique tranquilo(a)! Este texto não é uma nota suicida, não estou em depressão, nem passando por uma crise vocacional. Ser um plantador e pastorear a Igreja Batista Urbana me faz profundamente feliz e realizado.

Quando digo que sou um angustiado, falo em termos um tanto kierkegaardianos, talvez “nelson-rodrigueanos”, não como uma experiência que a gente experimenta pontualmente, como quando a gente sofre por uma desilusão amorosa, ou quando recebemos o aviso prévio no trabalho. Falo de angústia como uma condição na qual permanentemente vivemos, consciente ou inconscientemente, na busca por significado, no lidar com a infinitude de possibilidades da existência, no confronto com a condição caótica da realidade, no adentrar o terreno sagrado da alegria e aflição de entes queridos, na eterna briga interior entre razão, emoções, moral, espiritualidade, etc. Todas estas coisas me interpelam, ora agredindo-me os afetos, ora desafiando-me em convicções caras e basilares, ora consolando-me em dilemas, ora refinando-me a consciência do ser.

Penso que esse tipo de angústia seja a melhor maneira de interpretar a luta de Jacó com Deus no vale de Jaboque (cf. Gn. 32.22-32). Estou cada vez mais convicto que a narrativa desta luta no Gênesis não é meramente descritiva, mas paradigmática, apresentando a caminhada do cristão, que luta 24 horas com Deus, e que não se deixou ser anestesiado pela perfumaria religiosa ou dogmática. Como Jacó, sou um manco existencial por sempre lutar e (graças a Deus!) sempre perder a luta para Deus.

Angustiado e lutando todo tempo com Deus, me sinto acolhido pelo apóstolo: “Nós o proclamamos, advertindo e ensinando a cada um com toda a sabedoria, para que apresentemos todo homem perfeito em Cristo. Para isso eu me esforço, lutando (lit. agonizando, ἀγωνιζόμενος) conforme a sua força, que atua poderosamente em mim” (Col. 1.28-29). Na passagem, Paulo afirma que para cumprir seu ministério de proclamação do Evangelho aos gentios e formar cristãos maduros, ele continuamente agoniza. Entendo que a melhor maneira de interpretar este particípio grego é tomando-o como a descrição da natureza do ministério pastoral. Isto é, o ministério pastoral é agônico, realizado no ambiente da angústia, exercido por almas que são afligidas pela eternidade no coração. Se a vida cristã é uma diuturna luta com Deus, ainda mais o ministério pastoral! E, acredite, graças a Deus por isso! Pois esta agonia e angústia são instrumentos da graça educativa de Deus. Explico:

A angústia desenvolve dependência de Deus

Ser um pastor angustiado, tem feito de mim alguém profundamente dependente de Deus, e cada vez menos afetado por opiniões alheias. Minha vida de oração foi revolucionada, minhas definições de sucesso ministerial foram revistas, os critérios que uso para medir a saúde de minha caminhada cristã não são mais os mesmos. A minha angústia me faz muito pequeno diante de um Deus muito, muito grande. A angústia amplifica a minha percepção de Deus.

Ser um pastor angustiado e profundamente dependente de Deus tem me dado a chance de desenvolver um ministério pastoral com vísceras. Estou convicto que a igreja não precisa de pastores robóticos, impassíveis, super-heróis de mentira, babilônicos, com respostas frias e superficiais produzidas por algum algoritmo oriundo dos pacotes teológicos do mercado evangélico. Tais pastores são fakes, personagens, aclamados pela massa, mas não representam o Cristo do Getsêmani que acolhe a angústia e depende do Pai para realizar sua obra. Assim, a angústia separa os pastores autossuficientes da Babilônia e os pastores angustiados do Getsêmani.

Na absoluta dependência do Pai, o pastor do Getsêmani luta com Deus e sua sangue, chora no secreto, se indigna com a realidade, faz orações imprecatórias, afirma uma teologia eivada pela realidade e abraça seu povo com a alma. É sacerdote porque clama a um Deus grande por si mesmo, por sua família, por sua comunidade, por seu ministério, por sua visceralidade e pequenez.

A angústia refina nosso ensino e pregação

Os sermões que valem a pena não são fruto de uma mente cartesiana e exegética. Embora o labor exegético tenha sua importância, entender cuidadosamente o sentido das palavras e do texto não faz um pregador usado pelo Espírito Santo. Os fariseus e mestres da lei eram peritos na exegese e ainda assim são chamados de sepulcros caiados e raça de víboras, porque a diferença entre o perito exegético e o pregador apaixonado é a angústia no texto e a partir do texto.

As palavras de um sermão que valem a pena ser ouvidas não são aquelas copiadas dos comentários, são aquelas que nascem no silêncio da angústia. Em outras palavras, a agonia diante de Deus tem papel fundamental de depuração do nosso ensino e pregação. É a angústia que nos faz lidar com as perguntas que realmente estão sendo feitas por nossas congregações. É ela que nos faz depender do Espírito para falar ao coração de Jerusalém (cf. Is. 40.2).

É o pregador angustiado que vale a pena ser ouvido. Pregadores muito donos da verdade, que não tem dificuldades e dramas diante de Deus, da Palavra e da Igreja, que não ficam indignados com a realidade da igreja e revoltados com o que ouvem de Deus na Palavra, e que nunca foram contrariados por Deus, não passam de pregadores do próprio ego idealizado em sua retórica e teologia perfeita e inquestionável.

Angústia nos faz sensíveis ao povo

O pastor angustiado é sensível não somente a Deus, mas também ao povo. Quando falo povo, não me refiro somente à igreja e aos crentes. O pastor angustiado sabe que sua voz e ministério deve transcender as fronteiras da comunidade local, invadindo a sociedade, o espaço público, a cidade.

A angústia carregada na alma, faz do pastor um indivíduo capaz de ouvir e pastorear os aflitos de dentro e de fora. Simplesmente porque essa aflição e angústia o iguala àqueles que são objeto de seu ministério. Pastores angustiados não sucumbem à tentação de patronear suas ovelhas. Eles se contentam em pastoreá-las.

Como disse, angustiados adentram com reverência a dor e sofrimento alheio, não estupram consciências, não menosprezam capacidades, não subjugam convicções, não ferem almas, nem vilipendiam espiritualidades. A angústia faz amável e sensível a abordagem pastoral. A angústia na alma do pastor faz dele um verdadeiro pastor de almas.

Este texto poderia ser muito maior, pois a angústia também dá senso de propósito e prioridades, refina as virtudes cristãs essenciais (fé, esperança e amor), constrói estofo espiritual, multiplica dons e talentos. Quero encerrar esse texto, porém, simplesmente convidando você leitor a não rejeitar a angústia, pois ela é inevitável. Acolha sua condição angustiante e permita que Deus a use como instrumento de refinamento do caráter, levando você à semelhança com Cristo Jesus.

Esteja disposto a angustiar e lutar com Deus. Garanto, Ele sempre vence.

5 comentários sobre “Confissões de um pastor angustiado

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