Reformado com “r” minúsculo

Emprestei o título deste artigo do meu professor Darrell Bock. Em 1998, ele publicou no Journal of the Evangelical Theological Society (JETS) um artigo intitulado Why I am a dispensationalist with a small “d” (Por que eu sou um dispensacionalista com um “d” minúsculo). Neste artigo, o dr. Bock basicamente afirma um compromisso com a tradição dispensacional, sem fechar os olhos para os desafios e limitações que esta tradição apresenta. 

Neste artigo, quero fazer algo bastante parecido: quero apresentar as principais razões por eu não conseguir me adequar ao perfil reformado predominante no cenário brasileiro, apesar de amar profundamente a tradição reformada.

Reformado: Uma definição funcional

Antes de falar porque sou um reformado com “r” minúsculo, é necessário definir o que é um reformado. Essa é uma definição bastante difícil e não consensual. A partir de uma abordagem histórica, podemos dizer que reformado é aquele cristão que está ligado a uma tradição evangélica oriunda de um dos quatro principais movimentos de reforma que aconteceram na Europa a partir de 31 de outubro de 1517: (1) A reforma evangélica – ligada à tradição luterana; (2) a reforma suíça – ligada a tradição zwingliana e calvinista; (3) a reforma episcopal – ligada ao anglicanismo; e (4) a reforma “radical” – ligada ao movimento anabatista.

A partir de uma abordagem teológica, podemos dizer que reformado é todo aquele que subscreve alguma confissão histórica de fé reformada e está em alinhamento com chamados distintivos reformados, como os cinco solas, o sistema soteriológico calvinista, o princípio regulador do culto, o sacerdócio universal dos crentes, a teologia do pacto (aliancismo), a visão exaltada da criação e a teologia da glória de Deus.

Para fins deste artigo, vou tomar como reformado aquele que está alinhado com o modelo que tem se tornado mais conhecido e difundido no contexto brasileiro: cristãos que subscrevem alguma declaração de fé reformada, afirmam os brados da reforma (cinco solas), defendem a teologia calvinista, aderem ao princípio regulador do culto, interpretam a escritura sob os auspícios da teologia do pacto e preservam a visão do complementarismo clássico. Também considero neste artigo, o espírito reformado que impera nos círculos acadêmicos, nas igrejas de confissão reformada e nas rodas de discussões, principalmente, nas redes sociais.

1. Sou um reformado com “r” minúsculo por causa das minhas convicções acerca da natureza católica da igreja cristã

O penúltimo artigo do Credo Niceno-constantinopolitano (381 d.C.) afirma a natureza quádrupla da Igreja de Cristo: “Creio na igreja una, santa, católica e apostólica”. Muito embora a maioria das pessoas hoje atribuam a expressão católica à tradição católica romana, essa interpretação do texto credal é anacrônica. Em 381 d.C., quando este credo foi formulado, a Igreja Católica e Apostólica Romana sequer existia nos moldes como a conhecemos atualmente. Se a expressão católica não se refere a tradição romana, qual é seu verdadeiro significado?

Os pais e doutores da igreja se referiram à catolicidade da igreja em três termos: Primeiro, para afirmar que o corpo místico de Cristo é formado pelos remidos de todos os tempos e lugares. Assim, a igreja cristã é católica porque não encontra barreiras, étnicas, geográficas, temporais, culturais ou linguísticas. Em segundo lugar, para afirmar que a fé proclamada pela igreja cristã diz respeito a toda experiência humana. Como disse Abraham Kuyper, “não há nenhum centímetro quadrado da experiência humana, sobre o qual Cristo, que é rei sobre tudo, não diga: é meu!”. Assim, a fé cristã é católica porque todas áreas da vida e experiência humana estão debaixo do senhorio de Cristo e são objeto da sua operação. Em terceiro lugar, a igreja de Cristo é católica porque o conhecimento de Deus não está restrito a uma tradição ou confissão exclusiva. Deus não entregou os tesouros da fé a uma única tradição.

À luz da natureza católica da igreja e da confessionalidade cristã, sou um reformado com “r” minúsculo por entender que a tradição reformada não é detentora de todo o conhecimento de Deus e não vai per se traduzir tudo o que significa a experiência cristã. Há muito o que aprender com os ortodoxos, romanos, independentes, arminianos, amiraldianos, molinistas, etc. Quando reformados “da jaula” tomam pra si a tradição reformada como a única tradição que traduz e abarca a totalidade da verdade e experiência cristãs, cometem o mesmo erro que a tradição romana cometeu na idade média, ironicamente tornando-se objeto do protesto por parte dos reformadores.

2. Sou um reformado com “r” minúsculo por entender que há doutrinas mais essenciais à fé cristã que o TULIP calvinista

Quando falamos da sistematização das doutrinas cristãs, normalmente falamos de doutrinas essenciais e periféricas. Essenciais, como sugere o nome, são as doutrinas distintivas da fé cristã, muitas vezes também chamadas de dogmas. Isto é, são as doutrinas que nos identificam como cristãos. Negá-las não é somente um equívoco de natureza teológica ou hermenêutica, mas é negar a própria tradição cristã. As doutrinas essenciais foram sintetizadas nos credos históricos, a saber, o Credo Apostólico (séc. IV?), o Credo Niceno-constantinopolitano (325, 381 d.C.), o Credo de Calcedônia (451 d.C.) e o Credo Atanasiano (séc. VI?). Nestes documentos históricos está resumida a ortodoxa cristã, afirmada por todos os cristãos, de todos os lugares, em todos os tempos. As doutrinas essenciais são aquelas doutrinas que surgem como resposta quando perguntamos: “o que é necessário afirmar, para ser considerado um cristão?”. A resposta deve apresentar doutrinais tais como a trindade, o nascimento virginal de Cristo, plena humanidade e divindade de Cristo, a remissão de pecados, a salvação em Cristo, o retorno físico e glorioso de Cristo, etc.

As doutrinas periféricas, por sua vez, são as doutrinas que nos separam em tradições e denominações. Exemplo: a questão batismal, as escolas da escatologia, os tipos de governo da igreja, etc. As doutrinas periféricas são as doutrinas que surgem como resposta quando perguntamos: “o que é necessário afirmar para ser um ortodoxo? Ou um evangélico? Ou ainda, um batista? Um metodista? Um anglicano?”.

Muito embora isto soe como uma afronta aos ouvidos de um reformado zeloso e apaixonado, o sistema calvinista (TULIP) não se enquadra entre as doutrinas essenciais da cristandade. Caso contrário, só seria um cristão verdadeiro aquele que professasse o calvinismo e confessasse o Catecismo de Westminster, os Cânones de Dort ou alguma outra confissão de fé calvinista. É óbvio, porém, que arminianos, evangelicais, amiraldianos, dispensacionalistas e outros são verdadeiramente cristãos ainda que não subscrevam o modelo soteriológico calvinista.

Sendo assim, sou um reformado com “r” minúsculo, porque afirmo o trinitarianismo com um “T” maiúsculo – essa é a teologia fundamental que abrange todos os traços do meu pensamento teológico; afirmo a união hipostática com “U” e “H” maiúsculos, afirmo o nascimento virginal com “N” e “V” maiúsculos, e assim por diante. Em meu espectro teológico, os cinco pontos do calvinismo são absolutamente periféricos em relação a minha teologia credal. 

3. Sou um reformado com “r” minúsculo por não afirmar o princípio regulador do culto, nem a hermenêutica tipológica própria do Aliancismo

Neste momento, preciso retomar a definição de reformado que já foi apresentada. Pois, o leitor bem informado saberá que cristãos reformados ligados à tradição luterana do século XVI não afirmavam o chamado princípio regulador do culto – traço teológico distintivo da reforma genebrina. Aliás, esse leitor há de saber que as reformas luterana e genebrina (zwingliana) divergiam majoritariamente nas questões concernentes ao culto. Tenho como referência, como já dito, o estereótipo reformado que afirma o princípio regulador do culto.

Aqueles que já visitaram a comunidade que pastoreio, sabem que há muito espaço para espontaneidade e informalidade em nossas celebrações. É fato que priorizamos o louvor congregacional, a exposição bíblica, a oração, a correta administração dos sacramentos e a bênção apostólica. Mas, por não subscrevermos o princípio regulador do culto, também realizamos apresentações de crianças, há espaço para participações especiais de música e teatro, informamos a comunidade quanto às atividades da igreja, etc. Também já fizemos uso de músicas “seculares” em nossas celebrações, quando a letra e a reflexão proposta nos foi interessante. Enfim, embora um reformado apegado torça o nariz quando lê essa descrição de nossa prática litúrgica, não entendemos ferir nenhum princípio bíblico com nossa espontaneidade e leveza litúrgica.

Além das questões concernentes ao culto, sou um reformado com “r” minúsculo por não aceitar totalmente o pacote hermenêutico da escola aliancista, especialmente no que diz respeito à hermenêutica tipológica do Antigo Testamento. Não adiro, entretanto, o dispensacionalismo como modelo hermenêutico, pois também tenho bastante dificuldade com a hermenêutica literalista e a proposta de distinção e descontinuidade entre Israel e Igreja. Afirmo uma hermenêutica veterotestamentária essencialmente cristológica e assim, consigo harmonizar a relação de continuidade entre Israel e Igreja, sem invalidar e aguardar as promessas do Antigo Testamento quanto ao trono davídico.

4. Sou um reformado com “r” minúsculo por causa de meu complementarismo bastante moderado.

É bem verdade que o complementarismo não seja um traço distintivamente reformado. Mas, no contexto brasileiro, parece ter se tornado um traço marcante entre os reformados, graças a influência das obras de John Piper, Wayne Grudem, Thomas Schreiner, Andreas Köstenberger e outros.

Embora não consiga me encaixar na escola do igualitarismo (escola que considero um feminismo travestido de teologia bíblica), entendo a liderança masculina do lar como uma instituição pós-Queda e a maior parte das restrições impostas ao ministério e atuação feminina na igreja no corpus paulinum, como imposições descritivas e não prescritivas. Certamente escreverei mais sobre isso no futuro.

Na prática, isso significa que não reconheço o oficialato presbiteral feminino, mas não vejo restrições às mulheres quanto ao ensino, pregação e liderança na comunidade de Cristo. Creio com todo o coração que quando o Evangelho é proclamado com fidelidade no seio da comunidade, mulheres florescem e se tornam extremamente úteis para o Reino de Deus.

Por essas quatro razões principais (poderia elencar outras de ordem secundária), não consigo me adequar ao estereótipo e cultura reformada em contexto brasileiro. Amo a teologia reformada, todos os traços fundamentais do meu raciocínio teológico são de nuances reformadas, minha formação desde o início é dentro da tradição reformada, os autores e teólogos que me influenciam diretamente são reformados, mas ainda não encontrei em solo brasileiro grupos, teólogos e nichos reformados que sejam capazes que questionar, criticar e eventualmente até duvidar da própria tradição.

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