Ceticismo e cinismo para o bem da plantação de igrejas

Antes de me tornar um plantador de igreja, servia majoritariamente como um acadêmico na área da teologia. Como professor, havia sido treinado a pensar a partir de métodos, aprendi a sistematizar ideias, entender taxonomias e diagnosticar a realidade a partir de silogismos e outras estruturas de pensamento.

Por isso, ao iniciar a plantação da Urbana, minha arrogância acadêmica me dizia que tinha tudo arquitetado e todas as receitas prontas para fazer o projeto dar certo: li todos os livros que pude sobre o assunto, entrevistei plantadores, fiz parte de redes de plantações, bolei o tal plano de desenvolvimento estratégico, estabeleci as tão famosas metas realistas e exequíveis, desenhei o plano de desenvolvimento do grupo base, enfim, fiz tudo conforme mandava o figurino.

Em menos de três meses, descobri o óbvio: receitinhas e modelinhos não funcionam. Descobri que os gurus da eclesiologia, mentores destes modelos, de maneira geral, tem um discurso que sequer se aplica à realidade de suas próprias igrejas (ou se aplicam por um breve período de tempo, dada a realidade dinâmica da vida eclesiástica). Salvas as raras exceções, estes gurus são líderes de igrejas com uma dinâmica aquém do seu real potencial, estão rodeados por uma equipe medíocre (de maneira geral, porque não aceitam a sombra de pessoas competentes por perto), são comunidades formatadas e engessadas, sem impacto algum em seus contextos locais. Modelos e gurus reverenciados pelo mundo e desconhecidos pelos vizinhos de suas comunidades.

Mesmo assim, passar por essa frustração foi extremamente importante pra mim. E a razão é simples: Descobri que uma das principais características que um plantador deve ter é o ceticismo, com um quê de cinismo. Note: não estou dizendo que um plantador não deva levar sua vida com Deus a sério, ou que não deva ser uma pessoa piedosa e comprometida com o Evangelho. Não falo de ceticismo e cinismo nestes termos.

O plantador cínico

Quando falo em cinismo, não me refiro ao seu sentido negativo de hipocrisia ou indecoro. Uso essa expressão em seu sentido mais estrito, referindo-me à atitude de descaso (e um pouco de irreverência) em relação ao ethos do mundo dos plantadores. Se você deseja conhecer bem esse conjunto de valores, hábitos fundamentais e idiossincrasias que formam esse ethos, basta uma visita a um congresso de plantação de igrejas. A estirpe, os trejeitos, a gramática, os egos inflados, as camisas quadriculadas e as ideias são todas iguaizinhas e monocromáticas. Com a plantação da Urbana, descobri que quanto mais eu estava conformado a esse jeito plantador de ser, quanto mais o meu discurso fosse comum a esse mundo, quanto mais teórico e erudito da plantação eu fosse diante da minha audiência, mais distância e barreiras eu construía.

E a razão é simples: as pessoas com quem plantamos nossas igrejas são cristãos normais que não conhecem (e pouco estão preocupados com) teologia reformacional, princípio regulador do culto, estética eclesiástica, abordagens do cristianismo em relação a cultura, contextualização, modelos de igrejas da/para/com a cidade, etc. Estes irmãos e irmãs querem servir a Jesus, tratar bem suas esposas e maridos, cuidar bem e educar seus filhos nos caminhos do Senhor, ter integridade nas carreiras e relações interpessoais, participar de uma igreja saudável, e se sobrar tempo, aprender as doutrinas essenciais do cristianismo com um pouco mais de profundidade. Alguns vão ter interesse ou vocação para as coisas comuns ao ethos dos plantadores, mas minha experiência me diz que são a minoria.

Isso, porém, não quer dizer que todas essas coisas que mencionei não sejam importantes. Elas são e muito! Dominar todas essas teorias e estar por dentro dessas discussões é importante. O problema é quando elas dominam nossa abordagem para com as pessoas da igreja que não compartilham deste ethos. Por isso, estou cada vez mais convencido que um pouco de descaso e um pouco de irreverência em relação a essas coisas, nos faz “gente como a gente”, nos faz pisar no chão da realidade e nos coloca mais próximos daqueles que são o objeto do nosso ministério.

Nota: Se enquanto lê esse texto, você ficou ofendido com a estirpe que descrevi, minha intenção não é ofendê-lo gratuitamente, mas sugiro que faça um esforço de autocrítica, com as seguintes perguntas: “Por que me senti assim ao ler esta descrição e crítica?”, “Quão conformado estou a este ethos?”. Penso que bem possível que você já tenha vendido a alma – consciente ou inconscientemente.

O plantador cético

Quando falo que um plantador precisa ser cético, estou pensando em uma descrença e desconfiança em relação a três elementos: resultados, modelos e pessoas.

Uma plantação bem-sucedida não necessariamente significa gozar de crescimento numérico exponencial, expansão de influência ou fidelidade a um jeito de ser comunitário. É bem verdade que igrejas saudáveis tendem a crescer, expandir seus horizontes, multiplicar discípulos e impactar seu contexto. Vemos essa realidade descrita nas páginas do livro de Atos dos Apóstolos. Mas, é possível estarmos fazendo a coisa certa, no lugar certo, no tempo certo, com as pessoas certas, sem desfrutarmos de resultados imediatos. Por isso, resultados podem ser enganosos. Uma infinitude de livros já foram escritos sobre essa temática, por isso não vou ficar chovendo no molhado. 

O que tenho a dizer é que a minha experiência como plantador me mostra que se tomamos resultados como único termômetro para medir a saúde da comunidade, nos tornamos essencialmente pragmáticos. Na ânsia de querer ver nossas plantações crescer rumo à autossuficiência, corremos o risco de fazer somente aquilo que traz resultados imediatos e desprezar as tarefas silenciosas e de longo prazo, como formação de líderes e discipulado. Resultados positivos são sempre bem-vindos, mas nunca às custas do que é essencial para a vida da comunidade.

Além disso, aprendi que há uma estreita relação entre resultados e modelos. A lógica é simples: Visto que aspiramos e desejamos determinados resultados, chegamos à conclusão que precisamos ter controle das coisas e situações. Para isso, lançamos mão de um método ou modelo, que nos garante o controle necessário para a colheita dos resultados esperados. O que não percebemos, porém, é que quando lançamos mão de modelos e métodos para assumirmos o controle, de maneira geral, estamos cedendo à idolatria dos resultados. Esses métodos se tornam uma liturgia que praticamos para satisfazer os resultados idolatrados. Ser um cético de resultados nos livra da idolatria dos resultados.

No que diz respeito aos modelos, eles não somente dão a falsa sensação de controle e vendem a ilusão de resultados, mas também iludem no que diz respeito à construção da identidade da igreja. Explico:

A pergunta que tira o sono de qualquer plantador é: “Que tipo de igreja você vai plantar?” ou “Qual a identidade da igreja que você vai plantar?”. A maioria dos plantadores acham que vão encontrar a resposta para essa pergunta nas páginas dos livros que apresentam os vários pacotes à disposição no mercado. Por isso, na busca por uma identidade, é muito fácil se curvar diante de um modelo, e tentar replicá-lo no processo de plantação. Esse é um erro fatal que pode decretar a morte de um projeto, antes mesmo dele começar. Podemos observar os modelos e eles eventualmente nos dão boas ideias, mas em última análise, quem vai responder essa pergunta é a própria igreja que está se desenvolvendo. No processo de desenvolvimento, a igreja dirá ao plantador que tipo de igreja ela será.

Nas primeiras reuniões de planejamento de plantação da Urbana, eu tinha o sonho de replicar um determinado modelo – sim! eu sucumbi à idolatria do resultado e estava iludido com a ideia de encontrar a identidade da igreja em um livro qualquer! Logo percebi que se quisesse reproduzir esse modelo desejado, iria matar todo o potencial de desenvolvimento que havia na comunidade. Em nosso contexto local, com as pessoas que estava plantando, no período da história que Deus tinha nos colocado, reproduzir esse pacote eclesiológico que eu desejava, simplesmente não daria certo. Resultado: decidimos colocar em xeque e duvidar de todos os modelos disponíveis, e esperar para ver o que a igreja iria se tornar. Ainda que acidentalmente, foi a melhor decisão que tomei como líder da plantação. Ser um cético de modelos, nos ajuda a descobrir qual é a verdadeira identidade de nossas comunidades.

Finalmente, precisamos ser céticos em relação às pessoas. E a razão é simples: somos caídos e propensos a falhas e pecados. No início, tinha uma visão muito romântica das pessoas que faziam parte da igreja e da equipe que estávamos formando. Duas situações bastante negativas que vivi com pessoas que jamais esperava me frustrar, me educaram a esperar o melhor das pessoas, mas sempre estar preparado para o pior delas. 

Isso não quer dizer que não invisto de todo o coração e não acredite nas pessoas que fazem parte da igreja ou na equipe que lidero. Amo o povo da minha comunidade e confio no time que serve a igreja. Não tenho, porém, a visão romântica que me fazia abrir os olhos para as virtudes das pessoas e cegar em relação aos seus vícios. Neste tempo de plantação, descobri a beleza da igreja como o palco onde dons e talentos são refinados, mas também como o ambiente onde corações corruptos se manifestam e são tratados. Na prática, ser um cético em relação às pessoas, tem me ajudado a contratar, demitir e delegar autoridade para membros da equipe, bem como receber e excluir membros da igreja com tranquilidade e sem grandes crises de consciência. 

Muito mais poderia falar sobre o que tenho aprendido nesse aspecto da vida da igreja. Resumo dizendo que ser um cético de pessoas, livra de frustrações institucionais e protege a igreja dos famosos lobos em pele de cordeiro.

Ao passo que me tornei um cínico em relação ao ethos do mundo dos plantadores e cético em relação a resultados, modelos e pessoas, me tornei um indivíduo absolutamente apaixonado pela Igreja de Jesus. Isso me ajudou a entender que igrejas perfeitas só existem nas páginas dos livros de eclesiologia e no discurso de líderes que tem uma visão irreal de suas comunidades. Descobri que toda comunidade local que está no tempo e no espaço é imperfeita. Descobri que a igreja que está sendo plantada é palco da ação do Espírito de Deus, conduzindo-a onde Ele quer, independente dos nossos apegos eclesiásticos e metodológicos, ou ainda ilusões de resultados. Aprendi a andar uma etapa de cada vez, na dependência do Senhor. Finalmente, descobri que o platandor é aquele que está em posição de mais atrapalhar o que Deus quer fazer em sua igreja.

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