Crise de abastecimento e redenção

Artigo publicado em fevereiro de 2015 em Teologando

Introdução

Não se fala em outra coisa: estamos vivendo uma crise de abastecimento e recursos naturais no Brasil e no mundo. Profetas de Facebook já decretaram que São Paulo ficará às moscas pela falta d’água. Estima-se que em 40 anos as reservas de petróleo acabarão[1] e, em 2050, mais da metade da população mundial não terá a quantidade mínima de água para suas necessidades básicas.[2] Enfim, na melhor das hipóteses, em poucos anos o planeta estará vivendo uma profunda crise de abastecimento. E o que a teologia cristã tem a dizer sobre isso?

É essencial entendemos o conceito de antinomia para lidarmos, à luz da teologia cristã, como o dilema da crise de abastecimento e as dimensões ecológicas da redenção. De maneira bem simplificada e correndo o risco de ser simplista, “antinomia”[3] é o termo usado para descrever a aparente contradição entre duas afirmações propostas no mesmo contexto. Na teologia, quando afirmamos que Jesus é inteiramente homem e inteiramente Deus, deparamo-nos com uma antinomia. Embora essas afirmações pareçam contraditórias, sabemos que são verdadeiras. Embora criem tensão quando anunciadas no mesmo contexto, sabemos que as Escrituras atestam ambas.

A Propriedade da Criação

Quando discutimos ecologia sob a ótica da teologia, precisamos responder uma pergunta realmente muito simples: “De quem é a Terra?”. A resposta é uma antinomia: a Terra pertence a Deus (cf. Sl 24.1); a Terra pertence aos homens (cf. Sl 115.16). Embora pareça contraditório, essa é a resposta das Escrituras.

O problema todo começa quando uma das partes é rejeitada. Quando rejeitamos o fato de que a Terra pertence a Deus, a conclusão lógica é que o homem pode usar seus recursos da maneira que bem entender, satisfazendo todas as suas necessidades sem qualquer responsabilidade e cuidado. Tudo que fizer será legitimado pelo fato de que ele é dono e possuidor da criação.

Por outro lado, quando rejeitamos o fato de que a Terra pertente aos homens, a conclusão lógica é que o homem não possui direito algum sobre a Terra e que todo e qualquer uso dos recursos naturais é uma afronta a Deus, o verdadeiro possuidor da criação.

Essas conclusões podem parecer absurdas, mas se avaliarmos de maneira criteriosa as milhares de propostas de “desenvolvimento sustentável” e “proteção ambiental” encontradas nas páginas de jornais, debates políticos e ambientes acadêmicos, ora encontraremos indivíduos defendendo a primazia do desenvolvimento econômico e humano sobre a questão ambiental, ora encontraremos ambientalistas radicais (“ecoxiitas”), defendendo a proteção ambiental em termos quase religiosos, procurando invalidar todo e qualquer uso dos recursos naturais por parte do homem.

Portanto, a melhor resposta para o dilema contempla estas duas verdades: porque a Terra é dos homens, eles têm o direito de usufruir de todos os recursos da criação; porque a Terra é de Deus, esse usufruto deve ser responsável.

A Administração da Criação

A questão que se levanta, portanto, é como esse usufruto deve acontecer. O livro de Gênesis orienta como o homem deve relacionar-se com a criação. Genêsis 1.26-28 nos mostra que Deus imputou ao homem a responsabilidade de dominar (רדה) e subjugar (כבש) a criação – a teologia chama isso de “mandato cultural”.

O leitor desatento pode imaginar que esses versos legitimam as atrocidades que o homem vem cometendo na natureza, uma vez que os verbos “dominar” e “subjugar” têm uma conotação bem negativa para nós hoje.

Quando morava em Dallas, encontrei uma típica sulista norte-americana que em uma rápida conversa confessou, sem qualquer pudor, crer que o homem pode sim submeter animais a testes agressivos, inclusive matá-los sem grandes restrições (a caça esportiva é um hobby “louvável” na cultura norte-americana), pois ele recebera de Deus o domínio da criação. Ela também afirmou não acreditar nessa “coisa de aquecimento global”. Segundo ela, isso é conversa de ONG ambientalista que quer arrancar dinheiro das pessoas.

Para o azar dessa moça, não é esse o tipo de domínio e sujeição aos quais a Bíblia se refere. O verbo רדה (radah), traduzido como “dominar”, deve ser entendido em seu sentido de “administração”, isto é, o homem tem a responsabilidade de administrar toda a criação. O texto está falando que o homem deve funcionar como mordomo e gestor dos recursos naturais. O verbo כבש (kavash), traduzido como “subjugar”, traz a ideia de sujeição no sentido de que o homem é responsável por desenvolver a criação em todo o seu potencial para benefício próprio. Uma excelente paráfrase para Gênesis 1.28 seria: “Deus os abençoou e lhes disse: ‘Sejam férteis e multipliquem-se! Encham, administrem, desenvolvam a terra em todo seu potencial e usem seus recursos para o sustento de sua vida’”.

Esse mandato convida o homem a desenvolver a criação em todas as esferas: agrícola, tecnológica, cultural, social, política, econômica, etc. Assim, ao desenvolver novas tecnologias de cultivo, represar rios para produção de energia hidrelétrica, produzir alternativas aos combustíveis fósseis, expandir o conhecimento e a ciência, o homem cumpre o mandado cultural de seu Criador, ainda que não o reconheça.

Essa administração tem duas características básicas: é cooperativa e delegada. É cooperativa porque o homem não é capaz de criar processos naturais. Ele coopera com os processos naturais da criação. Ele pode arar a terra, mas não consegue fazer a planta germinar. Ele pode fertilizar um óvulo in vitro, mas não pode desenvolver um feto. Ele pode desenvolver técnicas de racionamento, distribuição e irrigação de água, mas não pode fazê-la cair do céu para encher os reservatórios. Ele desenvolve energia solar, mas não tem o poder de fazer o sol se levantar todas as manhãs. É verdade que o homem é capaz de controlar e até acelerar processos naturais, mas ele não tem poder de criá-los. Desse modo, o homem trabalha e coopera com Deus no desenvolvimento da criação. John Stott resume: “Devemos nos humilhar para reconhecer que nosso domínio sobre a natureza seria completamente improdutivo se Deus não tivesse feito a terra frutífera e se ele não continuasse a ‘dar crescimento’”.[4]

A administração também é delegada. E por ser delegada deve ser responsável. Como foi dito no início, o fato da Terra pertencer a Deus exige do homem responsabilidade, e essa responsabilidade envolve, dentre outros, conservação. Pela razão óbvia: ao destruirmos a criação e seus recursos naturais, estamos destruindo aquilo que não é nosso e acabamos, de forma tola, com tudo aquilo que sustenta a vida humana – ofendemos a Deus e estamos nos matando. Assim, em última análise, o cerne de todo o problema da crise de abastecimento, escassez de recursos naturais, poluição, crescimento urbano desorganizado, desmatamento, etc., é o fato de que na Queda (Gn 3), o homem reivindicou unilateralidade da posse e autonomia na administração da criação, deflagrando o cenário caótico em que nos encontramos.

As Dimensões Ecológicas da Redenção

A redenção oferecida na vida, morte e ressurreição de Cristo também diz respeito aos dilemas ecológicos. O primeiro elemento que salta aos olhos quando lemos as páginas do Novo Testamento é que Cristo era um carpinteiro (Mc 6.3) – isto é, a matéria prima de seu ofício era madeira, um recurso natural. Cristo mostra que é legítimo extrair da criação os recursos necessários para o desenvolvimento humano. Mostra também consciência ecológica e boa mordomia ao exigir que seus discípulos recolhessem as sobras da grande multiplicação de pães (de cevada) e peixes, afim de que “nada fosse desperdiçado” (Jo 6.12). Em Cristo vemos que o domínio do homem sobre a criação não deve ser orientado por ganância, mas para o suprimento das necessidades humanas.

Cristo demonstra ser o cumprimento perfeito do mandato cultural de dominar e subjugar a criação (Gn 1.26-28). Ele exerce domínio sobre os ventos (Mc 4.36-41); e embora possa ser argumentado que tal tenha sido possível por causa de sua deidade, chama a atenção o fato de que os discípulos ficaram maravilhados ao ver um homem dominando as forças naturais. Não estaria isso de alguma maneira relacionado ao domínio para o qual o primeiro Adão foi designado?[5]

Cristo também exerceu domínio sobre os mares caóticos (Mt 14.22-23), numa clara alusão ao mar caótico primevo de Gênesis 1.2[6] e em cumprimento ao mandato cultural, uma vez que ele não fala ao mar, mas simplesmente o coloca como estrado de seus pés e anda sobre as águas.[7]

No evento da pesca maravilhosa (Lc 5.1-11) é evidente que Cristo manifesta sua deidade claramente reconhecida na resposta de Pedro diante do milagre ocorrido (Lc 5.8). No entanto, o domínio sobre os peixes do mar, a ponto de reuni-los no lugar e momento certos com extrema precisão, pode perfeitamente refletir também o domínio delegado a Adão no princípio, conforme Gênesis 1.28: “Domine ele sobre os peixes do mar […]”.

Muitos outros exemplos neotestamentários podem ser citados, mostrando Cristo como o Adão perfeito que cumpre cabalmente o mandato cultural sobre a criação. Entretanto, o evento que tem maior significado teológico nos evangelhos é o relato da entrada triunfal em Jerusalém (Mc 11.1-10). Existe grande discussão entre teólogos acerca das razões pelas quais Jesus precisou utilizar um jumentinho “no qual ninguém jamais montou” (Mc 11.2). É óbvia, entretanto, a intenção de Marcos demonstrar que um homem, além de soberano sobre todos os homens, tem domínio sobre o mundo natural.

Finalmente, o apóstolo Paulo nos informa que toda a criação geme por causa dos efeitos da queda (Rm 8.19-23) e que está aguardando sua redenção final. Desde o dia em que o primeiro Adão reivindicou posse exclusiva e autonomia administrativa sobre a criação, todo o universo está sujeito ao pecado e o domínio perverso do homem tem gerado as mazelas ambientais que vemos em nossos dias.

A Igreja, portanto, enquanto aguarda a redenção final, o “novo céu e uma nova terra” (cf. Ap 21.1), e busca ser relevante para o mundo, deve seguir os passos de seu mestre Jesus, o padrão de administração dos recursos naturais, sendo promotora de medidas sustentáveis que propiciem o bem-estar humano, mas também a preservação do meio ambiente. Em outras palavras, é a agenda bíblica que oferece o melhor modelo de desenvolvimento sustentável. Pois só há sustentabilidade em qualquer processo de desenvolvimento humano se este pressupor que a criação pertence a Deus, e também aos homens.


[1] http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/energia/conteudo_280677.shtml

[2] http://growingblue.com/water-in-2050/

[3] Para mais informações, consultar: ABBAGNANO, Nicola, Dicionário de Filosofia, São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 63-67.

[4] STOTT, John. Issues Facing Christians Today, Kindle Edition, Grand Rapids: Zondervan, 2006.

[5] Os milagres de Cristo geralmente atestavam sua reivindicação acerca de sua deidade (cf. João 20.20-31). Alguns, porém, foram feitos para manifestar sua perfeita humanidade e manifestar o que um homem sem pecado foi criado para fazer em virtude de seu papel como imagem de Deus, exercendo domínio sobre a criação. Para mais informações, consultar: MERRILL,Eugene. Everlasting Dominion: A Theology of the Old Testament, Nashville, B&H Academic, 2006. p. 169-174.

[6] Para mais informações sobre a Teologia do Mar Primevo, consultar: DAY, John, God’s Conflict with the Dragon and the Sea. University of Cambridge Press, 1985.

[7] É notável que Cristo tenha exercido domínio sobre o mar revolto colocando-o debaixo de seus pés, pelo fato de que o verbo כבש (kavash), traduzido como “subjulgar” em Gênesis 1.28, possui a conotação de “colocar debaixo dos pés” (cf. Gesenius’ Hebrew-Chaldee Lexicon of the Old Testament).

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